|
|
Picasso
A Multiplicidade do Vértice
Algumas das melhores obras
gráficas e ilustrações de Pablo Picasso em exposição no
Centro de Artes, a partir de Agosto.
CAS - Centro de Exposições | 15 Agosto - 19 Outubro | Todos
os dias, 14h00-20h00 | Parceria Câmara Municipal de Sines /
Centro de Artes de Sines, Município de Ponte de Sor,
Fundação António Prates, Museo Extremeño y Iberoamericano de
Arte Contemporáneo (MEIAC), Asociación de Amigos del Museo
Extremeño y Iberoamericano de Arte Contemporáneo, Junta de
Extremadura

Escultor, Modelo, Y Escultura Sentada. Punta
seca y raspador sobre cobre. 31,8 x 18,5cms.
Suite Vollard: 40. Colección Sr. Don Fernando
Palacios.
A exposição "A multiplicidade do vértice",
comissariada por Pedro Pizarro, realiza um
percurso através da obra gráfica de Picasso e
das suas ilustrações para livros como "Le Cocu
Magnifique", com textos de Camilo José Cela, o "El
entierro del Conde de Orgaz". A exposição tem
como motivo o 125.º aniversário do nascimento do
artista e reúne a obra gráfica e de ilustração
das colecções da Extremadura espanhola. Em Sines
veremos 40 gravuras realizadas entre 1930 e 1970
nas técnicas águaforte, aguarela e litografia.
PICASSO: A MULTIPLICIDADE DO VÉRTICE
Texto de Pedro Pizarro
Desde os anos heróicos em que Picasso,
juntamente com Braque, criou a linguagem
cubista com a sua diversidade de
perspectivas, a independência e
autonomia de planos; a decomposição do
volume, o gosto pelas formas geométricas
ou a cor plana, esse movimento em que se
introduz o factor tempo e a sua
fugacidade, o pintor de Málaga, apesar
de trabalhar com outras estéticas,
sempre foi fiel – à sua maneira – à
representação de planos autónomos e
independentes e à multiplicidade de
olhares sobre um objecto, essa
multiplicidade de arestas que podíamos
chamar a multiplicidade do vértice. Essa
visão polifórmica foi o que fez de
Picasso um dos mais originais criadores
de todos os tempos, e isso pode
apreciar-se na gravura, um meio em que
se expressou em numerosas ocasiões.
Neste sentido podemos dizer que a sua
obra é como um rio caudaloso que se
expande ao longo de toda a sua vida
artística e que inunda todos os
territórios da arte que o rodeiam.
Como disse o escritor Gerald Brenan:
«Poetas e pintores estão fora do sistema
de classes, ou melhor, constituem uma
classe própria especial, tal como a
gente do circo e os ciganos». Em
inumeráveis ocasiões Picasso
identificou-se com o espectáculo
circense, cujos personagens representou
com frequência. A sua admiração foi tal
que o poeta Jean Cocteau lhe ofereceu um
fato de arlequim, que pode ser
contemplado nos retratos que Picasso fez
ao pintor Jacint Salvató em 1923.
Identificado com a comédia Italiana, com
arlequim ou polichinelo, nela vê, sem
dúvida, um assunto da vida, a
transposição da sua encenação e da sua
farsa. Em especial na gravura, retratou
todo esse mundo de acrobatas, de
bailarinas, de jogo, de mulheres….
Constituindo-se num compendio da sua
própria visão da vida, do sofrimento, da
dor, da velhice, da sedução do sexo e da
morte.
Salvo raras ocasiões não foi um autor
simbolista. É um pintor do quotidiano,
um homem que reflecte através da sua
obra a frase de Horácio: «dum loquimor,
fugerit invida aetas: carpe diem, quam
minimum crédula postero» (Enquanto
falamos, foge o invejoso tempo.
Aproveita o dia e não confies nem
minimamente no amanhã). Mas, por isso é
também um criador cuja produção pode ser
interpretada como um diário íntimo dos
seus acontecimentos mais vitais.
Todas as culturas procuraram a beleza
nos edifícios e nos objectos que
construíram como forma de
transcendência, constituindo-os em
símbolo do seu poder e da sua ideologia,
como objectos transmissores de um código
de signos. A desmistificação da beleza e
do cânon estético aparece em Picasso
como emblema de uma época de ruptura que
destrói, acompanhando as duas Guerras
Mundiais, alguns dos estigmas estéticos
herdados do passado.
A arte é o resultado da proporção e da
medida, pelo menos, assim tinha ficado
estabelecido desde a Grécia, cultura que
se preocupou em fixar normas e medidas.
Reinterpretar as proporções
estabelecidas tinha sido uma questão de
movimentos e estilos. Alguns mestres
clássicos já utilizavam o desenho como
fórmula simplificada para chegar às
proporções precisas da beleza, e nestas
modificações – por vezes em favor da
expressividade – optaram pela não
representação do canon adequado. Tal é o
caso de El Greco ou de Ingres, ambos
insistentemente admirados por Picasso e
utilizados como referentes comuns de
muitas das suas obras. Romper a simetria
fazia parte da nova revolução estética.
Por isso Picasso encurta a figura
feminina, e faz volume geométrico
durante o período de Gósol, por isso os
narizes são meros triângulos durante
1909, e as caras, e os corpos nus, e os
corpos vestidos, e as paisagens, são
assimétricas, e a perspectiva desaparece
num desejo de devolver ao quadro, à
obra, a sua verdadeira dimensão
espacial, o seu valor como contentor
objectual e como mero instrumento
difusor da mimesis. Picasso não
perseguia, nem pretendia encontrar
beleza, mas sensações, i.e. comunicação.
Esta é, sem duvida, uma das premissas do
séc. XX, já que é o século que viu
surgir a fotografia, o cinema, a
televisão, e o incipiente
desenvolvimento da informática, dos
computadores, e da rede das redes, nas
duas últimas décadas. E tudo isso teve
uma forte influência na arte.
O criador da inteligência artificial,
Marvin Minski acredita que a experiência
da beleza é uma das formas que a
natureza humana tem para desligar
temporariamente do lugar mental onde se
alojam as recordações negativas. Diz que
a visão da beleza é um sinal que se
envia à mente para que deixe de
«avaliar, seleccionar e criticar».
Segundo Minski a beleza adormece a
mente. Fazendo um rápido apanhado por
toda a obra produzida por Picasso nas
suas diferentes etapas, é evidente que é
um autor que não cria beleza, pelo menos
no sentido mais tradicional ou clássico
do termo. Dele podemos deduzir que a
finalidade da sua obra não é,
precisamente, a de anular a mente
através da admiração. O que deseja
Picasso é provocar, não quer desactivar
temporariamente certas zonas cerebrais
senão mantê-las activas, estimulando a
tensão, pondo-as em estado de alerta.
Desta forma o espectador encontra-se
perante a sua obra numa constante
atitude de julgar, incluso de defesa,
visto que é esta a conduta que se produz
perante o desconhecido, o estranho, o
novo que contem ruptura. Pode dizer-se
por ele que a sua obra é desafiante, não
prazenteira.”Um homem não há-de ficar
indiferente perante uma obra de arte,
não há-de passar lançando-lhe um olhar
negligente… Tem que vibrar, comover-se,
ser criativo, com a imaginação senão
puder faze-lo realmente….O espectador
há-de ser arrancado ao seu estado
letárgico, sacudido, posto perante um
compromisso, tem que tomar consciência
do mundo em que vive…” |

|
|